sexta-feira, 10 de julho de 2020

a mentira:

palavra traiçoeira,
convivo contigo diariamente,
lobo vestido de ovelha,
agulha num mar de areia,
é a pessoa que não mente,
qualidade velha,
prestes a morrer,
sem descendentes para a fazer renascer.

a voz que profana,
vil e tirana,
invade o meu espaço sucessivamente,
cabelo privado de pente,
é assim esta liberdade minha,
tempos em que verdadeiramente a tinha,
cabeça calculista e insana,
é esta a mente de uma pessoa desumana.

terça-feira, 7 de julho de 2020

Carta não lida:

não sei por onde começar, talvez pelo inicio. quando ainda não era um adolescente, já me sentia abandonado. soube, desde cedo, o significado de solidão, e isso assustava-me. quando me apercebi do quão sozinho estava, diariamente, recorri às tecnologias para preencher o vazio que sentia dentro de mim. na altura não sabia, mas esse seria um vício que havia adquirido, desde jovem. comecei a ter medo de pessoas, das interações e das mascaras. sentia como se não conhecesse ninguém verdadeiramente, nem mesmo a mim. quando me tornei adolescente já sabia o que era sentir ódio e raiva. descontentamento e inveja. inveja de ver todos os meninos com os seus pais, como riam e sorriam. como tudo parecia estar bem. na minha casa era cada um no seu canto. sem carinhos, sem afeto.

sai de casa tinha 15 anos, fui morar com a minha mãe, que na altura conhecia pouco. esta senhora a quem chamo mãe demonstrou realmente o que é ser mãe. nunca me abandonou, esteve sempre presente e deu-me afetos sempre que precisei. no entanto, sentia uma revolta enorme por ela ter saído de casa. tratei-a mal, e isso fez-me sentir um filho horrível e culpado. ao longo da minha adolescência criei amizades, algumas que duraram até hoje. amigos que, também, estiveram lá para mim, sempre. isso causou-me confusão, alegria e mágoa, pois pensava que tinha amigos apenas porque ninguém me conhecia de verdade. ninguém conhecia o monstro que era ou o monstro que sou. conheci também uma rapariga, cujo nome não vou dizer, ela ajudou-me a gostar de mim próprio e, tal como a minha mãe, aceitou-me pelo que eu era. senti, pela primeira vez na vida, amor. sentimento complexo que, sinceramente, não sabia como lidar com ele. no final tudo acabou mal, porque sempre que alguém se aproxima demais de mim, eu afasto-os demonstrando parcialmente o que sou de verdade. minto e condiciono. manipulo.

aos dezoito anos tentei-me matar, tomei uma caixa de olanzapina e cortei os pulsos. encontraram-me à entrada do meu prédio, desmaiado. lembro-me de ver a minha mãe a correr para mim e de pensar, vai tudo correr bem agora que ela está aqui. quando acordei, no hospital, o meu pai olhou para mim com um ar triste e desiludido. essa imagem marcou-me muito, especialmente porque quando sai de casa dele deixamos de falar durante dois anos. o meu pai nunca me fez sentir como se merecesse o louvar de quem se esforça, porque ele sabia que eu nunca me havia esforçado. sempre fui preguiçoso. nunca dei o meu melhor em nada. e ele sabia. embora isso, o meu pai ensinou-me muito e hoje sou o que sou devido à sua influencia. nem sempre as experiencias más fazem de nós más pessoas. podemos aprender com elas e mudar o ciclo do ódio. foi graças ao meu pai que me soube proteger. em quem escolher confiar. a quem me abrir. foi graças ao meu pai que aprendi a viver sozinho, porque na verdade, estávamos os dois sós e abandonados. eu e o meu pai não somos muito diferentes, na realidade até somos demasiado iguais, embora ele não admita. sempre quis ser como ele, pois ele sempre foi o meu herói. os meus pais sempre acreditaram em mim, sempre me deram o essencial e às vezes até a luxúria da vida. apostaram nos meus estudos, acreditaram que me ia formar, e ainda hoje trabalho para não os falhar. é por eles, e por mim, que tento lutar diariamente contra as vozes que me assombram, que me seguem e condicionam. as pessoas não sabem o que é o desespero até quererem ouvir a sua voz interior e não a conseguirem encontrar com tanto ruído que anda lá dentro.

não me vejo como um só, vejo-me como vários. chamem-me maluco, chamem-me Fernando Pessoa. não me importa, porque para mim sou apenas eu. ser "diferente" é algo de que me orgulho, porque ao longo da minha vida as minhas escolhas não eram as de uma pessoa "normal". uns seguiam as estradas, outros atravessavam o rio de barco, outros voavam por cima das planícies. eu? atirava-me para o meio do matagal, cortava-me nos picos, nas pedras, escorregava em poças, mas no final chegava onde queria chegar. o sofrimento é a porta pela qual todos aqueles que querem crescer têm de passar. não temam a dor. a dor é passageira.

aos vinte e três anos, decidi tomar mais uma dose incrível de comprimidos e mutilar-me de novo, desta vez para calar as vozes e para me focar no presente. não me orgulho do que fiz, pois os meus pais e amigos sofrem com as minhas ações. eu fico triste com isso, como é obvio, mas comportamentos desadaptativos são a unica coisa que aprendi na solidão. sinto-me sem esperança. pois embora faça de tudo para ficar melhor as vozes não param. é uma luta diária. sou eu a tentar restaurar o meu sentido de self. sou eu a tentar não assustar os que me rodeiam. eu posso ser um monstro, mas nem todos os monstros são maus. alguns são doceis, mimosos e só precisam de afeto. gostava que houvesse menos estigma em volta destas temáticas. porque as pessoas com condições semelhantes e não semelhantes à minha sofrem todos os dias, todas as horas, todos os anos. é um verdadeiro inferno.

depois de escrever isto tudo sinto-me melhor. sinto como se me tivessem tirado um peso de cima das costas. esta ideia foi-me proposta por uma profissional e supostamente o seu titulo é carta não lida. eu não gosto de cartas não lidas, por isso partilhei isto convosco. quem sabe tenha ajudado alguém, nem que seja a compreender melhor o outro.

domingo, 5 de julho de 2020

ruas pavimentadas,
degraus de escadas,
paredes grandes, paredes inabaláveis,
janelas, vidros impenetráveis,
calçada descalça,
cinto sem calça,
câmara grava cada movimento,
desde embrião a pinto,
ovelhas ordenam formigas,
no final são todas amigas,
palavras omitidas,
imagens refletidas,
é o caos, é o fim,
colheita do rim,
é o destino,
é o desaparecer do menino,
natureza profanada,
mãe desesperada,
a tua beleza é um engodo,
flor carnívora de bonitas cores,
preso no lodo,
chuva constante nos açores,
chuva que refresca a mente,
sigo em frente,
estrada sem retorno,
planeta deixado ao abandono,
vidros estilhaçados cortam-me os pés,
respiro fundo, conto até dez,
elevo-me, recomponho-me,
refresco-me, impulsiono-me,
casa só com portas fechadas,
moro cá dentro,
memórias encontradas,
preso no seu centro,
as marés sobem,
abrigo inundado,
visões que me fodem,
estou trancado,
trancado no meu armário,
cheio de monstros e sombras,
sou um peixe num aquário,
odeio-te, passado que me assombras,
canto canções de melancolia e desespero,
talvez seja tudo um exagero,
talvez seja tudo um pesadelo,
carta que aguarda a abertura do selo,
deita-me num mar de rosas,
lê-me as tuas prosas,
fecha-me a pestana,
faz-me a cama.



segunda-feira, 29 de junho de 2020

Cidade vazia:
rio desaba no vasto oceano, lua que nos circunda todo o ano, balas que me atingem e não causam dano, ouço algo belo. talvez sejam notas de piano.
casa solitária no meio de um lago, buscar sentido em todo o lado é vago, a sabedoria era maior em momentos passados, tempos em que bailava ao som de outros fados.
esta estação, que é somente tua, expôs a verdade nua e crua, sou uma marionete que controlas, sou o pedaço de terra debaixo das tuas solas.
momentos que duram para a eternidade, sentimentos com continuidade, nunca te privei de liberdade, sempre falei com honestidade.
esta cidade que foi, em tempos, nossa, perdeu o brilho com a tua ausência, amor substituído por ciência, vejo o meu reflexo numa possa.
a verdade do que nunca foi dito, nunca me será dada, digo e cito, "não se passa nada".
vista tapada com um pano, magoa e causa dano, este pano que tento tirar, podias ter sido tu retirar.

sábado, 27 de junho de 2020

Antes de te ter abraçado não sabia o quão brilhante era este mundo. Foi um amor que chamou o meu nome. Quando olhava para ti, o meu coração vibrava. Nunca esquecerei todos os momentos comuns que vivemos, para toda a eternidade. Tal com o sol, brilhaste sobre mim. Antes de ter largar não soube o quão solitário era este mundo. Flores lindas crescem e murcham aqui. A tua estação nunca irá voltar. Vai existir o dia em que nos vamos reencontrar. Esse será o dia mais feliz da minha vida. E quando isso acontecer, voltarei para ti como a primeira geada. Vou ao teu encontro
sombras reiunem-se onde partiste,
cordão nebuloso que une este sitio a ti,
sou imprudente por me ter deixado afundar tão fundo,
e agora bati no fundo, no fundo desta estação que só a ti te pertence.
tenho uma mão cheia de memórias e a outra cheia de arrependimentos,
coisas que queria dizer e não disse, momentos em que devia ter ficado calado, mas não fiquei.

quando olho para o céu, de noite, conto as estrelas. consolo-me no facto de que consigo ver as estrelas embora elas estejam distantes de mim. estás estão distante. é assim tão errado querer acompanhar-te? é doloroso. nunca senti nada como isto. sou cego para o que me é primitivo e de ouvidos abertos para o bater do teu coração.

sinto-me como um observador passivo que nada pode fazer para além de chorar. chorar de alegria, chorar como um pinto abandonado. sei que nada é eterno e, sei também, que somos só um momento, mas o momento em que estiveste na minha vida foi o melhor momento que vivi até hoje. ninguém, nunca, me fez sentir como tu me fizeste. és a água do rio cujo destino tento apanhar, mas tal como a água do rio, escapas pelos meus dedos.

o que me aguarda o futuro? quanto tempo mais irei eu sentir-me desta forma? para sempre? ou só por mais um breve instante?

quarta-feira, 24 de junho de 2020

O que é o amor?

É o fim, é o começo,
É uma despedida, é um até logo,
É o sol de Junho, é a chuva de Janeiro,
É um circulo, é um cilindro,
É um beijo, é um virar de costas,
É o amor, é o desespero.

É o virar de costas, é o fim da estrada,
É a solidão que sinto à noite, é a luz de presença,
É um espelho de aço, é a água constrangida,
É a alma aquecida, é o coração gelado,
É o amanhecer, é o crepúsculo,
É a vida, é o abraço da morte.

É o pensamento recorrente, é o sentimento persistente,
É o corroer do solo, é a flor a crescer,
É a mãe sem filho, é o crescer da emoção,
É a lagrima no rosto, é o sorriso na orelha,
É a borboleta no estomago, é a cantiga desconsolada,
É o nascer, é o crescer, é o envelhecer.